Coronavírus, Žižek e Spielberg: metamorfoses do medo, por Estevam Dedalus

Há quase 45 anos o diretor Steven Spielberg aterrorizava o mundo com o lançamento de Tubarão. O pânico provocado pelos ataques de um terrível tubarão-branco às praias da turística cidadezinha de Amity Island tomou conta das salas de cinema. O filme, primeiro a ultrapassar a marca de 100 milhões de dólares em bilheteria, estabeleceu as bases do blockbuster e deixou muita gente com fobia de entrar na água. Minha tia Leninha certa vez me disse que ficou meses com medo de ir à praia e de tomar banho de chuveiro – tamanho o pavor que o filme criou em sua imaginação de adolescente.

 O medo é um poderoso dispositivo psicológico e social. Steven Spielberg ao ser questionado pelo jornal El País sobre seu processo criativo afirmou que o medo, apesar de não gostar de senti-lo, era o seu maior combustível: “A insegurança que o medo causa é a única coisa que realmente me inspira”. Ele soube como ninguém levar o medo ao cinema em forma de tubarões assassinos, dinossauros ferozes, nazistas sanguinários e extraterrestres misteriosos que povoam até hoje o nosso imaginário cultural.

Uma das leituras mais curiosas sobre como o medo atua no filme Tubarão saiu da “cabeça perturbada” do filósofo e sociólogo esloveno Slavoj Žižek. Ele se pergunta qual o significado metafórico do tubarão? O tubarão, diz, além de representar a figura óbvia do inimigo externo que ameaça a ordem e os valores de uma sociedade e que pode englobar diferentes coisas a depender do grupo e do contexto histórico, deve ser entendido como uma forma simbólica de unificar os nossos medos.

Todos sentimos algum tipo de medo. Muitos de nós, por exemplo, nos apavoramos com a ideia de sermos assaltados ou ficarmos desempregados. Há quem tema mais a morte, outros de ficar doente, envelhecer, perder alguém que ama, sofrer um acidente de trânsito, empobrecer, fracassar ou ser vítima de uma catástrofe natural. O tubarão, na visão de Žižek, unificaria esses medos, simplificando nossa relação com a realidade.  

A figura do inimigo externo, unificador de medos, é historicamente recorrente e costuma servir a propósitos nada louváveis. Žižek lembra da perseguição feita aos judeus na Alemanha nazista, alçados à condição de inimigos número um do povo alemão. A derrota na Primeira Guerra Mundial, as insatisfações com a crise econômica que desolava o país, entre outros problemas, acabaram sendo reduzidos à existência dos judeus.

Esse mesmo mecanismo ideológico foi utilizado pelos EUA durante a Guerra Fria contra os Soviéticos, e vice e versa. Grupos políticos conservadores hoje na Europa fazem o mesmo com imigrantes, e, no Brasil, com o pensamento de esquerda. Sociólogos como o norte-americano Everett Hughes mostraram como temos obrigação moral maior em relação às pessoas de nossas comunidades e um descompromisso proporcional em relação aos que estão fora dela. Essa distância pode levar à intolerância e a ações violentas como o extermínio ou apenas à atitude blasé.  

A pandemia do coronavírus que assola o mundo atualmente é quem assume agora o papel de unificar os medos de todos nós, mas de uma forma estranhamente singular. O inimigo não é um país, uma possível guerra nuclear, um grupo ou ideologia específica, mas um vírus invisível e mortal que pode estar em qualquer lugar. Uma ameaça onipresente que não faz distinção de classe, raça, gênero, etnia; que não respeita fronteiras nacionais, credos religiosos, idade ou poder político. Um inimigo que pode estar escondido, insidiosamente, no beijo da pessoa amada, no abraço carinhoso de um filho ou num aperto de mão amigo.

Isso nos leva à tríade lacaniana: imaginário, simbólico e real. E mais uma vez a Žižek. Ele observou com base nas ideias de Lacan que a experiência da autoridade para ser vivida como real precisa se manter virtual. Uma ameaça latente. Quando a autoridade é vivenciada muito diretamente ela perde a sua força. Um pai com efetiva autoridade basta olhar para o filho para conseguir sua obediência; o uso da violência física nesse caso seria paradoxalmente um sinal de impotência.

É com base nessa analogia que podemos pensar que a ameaça que a humanidade enfrenta com a pandemia do coronavírus pode ser vista como socialmente mais forte e poderosa. Quase todo o tempo nós a experimentamos como uma ameaça ubíqua e virtual. Um medo reiterado da morte que nos leva a evitar contatos sociais, ao pavor de que nossos parentes e amigos sejam atingidos e que o país entre em colapso e uma crise econômica e um governo genocida matem milhões.

Nesse contexto, a insegurança é continuamente realimentada, a ansiedade, o sentimento de impotência, e o pendor ao fatalismo disparam. Não é à toa que algumas pessoas adotam comportamentos suicidas ou negacionistas, pedindo o fim do isolamento social e a volta à vida normal. E outros desejem ser contaminados. É o que revela o próprio Žižek: “Às vezes me pego desejando ter logo contraído o coronavírus – assim, isso ao menos poria fim a essa incerteza debilitante”.  Como nos ensinou o poeta inglês William Shakespeare: “O horror visível tem menos poder sobre a alma do que o horror imaginado”.


Escrito Estevam Dedalus – Doutor em Ciências Sociais pela UFRN. Professor do Departamento de Educação e do curso de Especialização em Educação e Políticas Públicas (UEPB/Campus III)

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