Harry Potter, Freud e coronavírus no contexto brasileiro, por Marcelo Saturnino da Silva

Em comemoração aos 20 anos da chegada da Saga Harry Potter, ao Brasil


No livro “Harry Potter e a ordem da Fênix”, conta-nos J.K. Rowling[1] que mesmo sendo claros os sinais de que o Lorde da Morte havia voltado, o ministro da magia, Cornélio Fudge, assume uma postura de negação, recusando-se a acreditar nos sinais e mesmo no testemunho de Harry Potter e, ainda, nas palavras do diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Alvo Dumbledore.

Logo no início do livro, durante uma reunião, Potter indaga: “como ele [o ministro da magia] pode pensar uma coisa dessas? […] Como pode pensar que Dumbledore vá simplesmente inventar tudo isso… Que eu vá inventar tudo isso?” É Sirius Black quem responde: “Porque aceitar que Voldemort retornou significaria ter problema que o Ministério não precisa enfrentar há quatorze anos […] Fudge simplesmente não quer encarar a verdade. É muito mais cômodo se convencer que Dumbledore está mentindo”[2].

Enfrentar a verdade equivaleria reconhecer que há problemas que deverão ser enfrentados. É por não se achar preparado para esse enfrentamento que Fudge se refugia na crença de que tudo não passa de uma ilusão, de uma mentira de Dumbledore e do próprio Harry Potter. Mas, para que a ilusão apareça para Fudge com uma certa consistência de realidade, é necessário que ela seja compartilhada por outras pessoas. Assim é que ele vai se engajar em dois tipos de estratégias: por um lado, buscará, mediante a propaganda, convencer a comunidade bruxa de que “não há nada a temer” e, por outro lado, incentivará práticas e ações objetivando desqualificar a narrativa de Potter e Dumbledore, qualificando-a de mentirosa e de que a mesma está à serviço de um complô, com o objetivo de derrubá-lo do ministério. Nesse sentido, tanto Harry quanto o diretor de Hagwarts, serão vítimas de um processo de calúnia e difamação que será estendido a todos(as) aqueles(as) que lhes sejam próximos(as).

Numa perspectiva freudiana, diremos que Fudge nega as percepções que se relacionam ao retorno de Voldemort, se protegendo, dessa forma, da angústia e do desprazer que este reconhecimento implica. Com efeito, no texto “Esboço de Psicanálise”[3], Freud afirma que diante de uma exigência do mundo real, percebida como aflitiva, o ego tende a pôr em ação o mecanismo de negação, evitando contato com aquela parte do real que se apresenta para o ego, como excessivamente perturbadora.

Em “A perda da realidade na neurose e na psicose”, Freud[4] acentua que ambas [neurose e psicose] expressam a rebeldia do id contra o mundo externo, sua incapacidade de adequar-se a necessidade do real. Todavia, enquanto na neurose há uma fuga da realidade reconhecida, via mecanismo do recalque (disso que aí está, eu não quero saber), o traço que vai marcar a psicose é a rejeição (Foraclusão, numa leitura Lacaniana) concomitantemente à construção de uma realidade substituta (à serviço do id), pela via da alucinação.

Fudge não alucina, não está, portanto, no âmbito da psicose, trata-se antes de uma atitude neurótica, caracterizada pela fuga(negação) daquilo que está diante de seus olhos. Sua atitude é constituída pelo reconhecimento vis-à-vis a recusa daquilo mesmo que se reconhece, a exemplo daqueles pacientes citados por Freud[5], que dizem: “você pergunta quem pode ser esta pessoa no sonho. Minha mãe não é”, frase esta, logo corrigida pelo analista, como bem esclarece o autor ao frisar: “Tomamos a liberdade, na interpretação, de ignorar a negação e apenas extrair o conteúdo da ideia. É como se o paciente houvesse dito: ‘É certo que me ocorreu minha mãe, em relação a esta pessoa, mas não quero admitir esse pensamento’”. E nós podemos ainda acrescentar: admiti-lo seria desprazeroso (ou doloroso) para além do que hoje posso suportar.

A negação aparece, assim, na perspectiva freudiana[6], como “uma forma de tomar conhecimento do que foi reprimido” e se relaciona aos impulsos primitivos introjeção-projeção, mediante os quais o ego busca introjetar (trazer para si) tudo o que é sentido como bom (da ordem do prazer) e, ao mesmo tempo, projetar (colocar para fora, cuspir) tudo que é sentido como mau (da ordem da dor/sofrimento), tendência que se funda no reconhecimento de que o que é mau e o que é forasteiro (o que vem de fora) são, inicialmente, idênticos.

Poderíamos pensar, num primeiro momento, que a postura de Fudge não encontra abrigo na realidade dos homens e mulheres concretos, por se tratar de um personagem fictício. Trazer a perspectiva freudiana ajuda a entender que tal personagem só exemplifica um mecanismo que, como vimos, é constitutivo da psicodinâmica, isto é, do funcionamento psíquico dos seres humanos, em sua relação com o mundo externo.

Mais, esperamos que Fudge e Freud possam nos ajudar a compreender o modo como a atual pandemia relacionada ao novo coronavírus está sendo elaborada no contexto brasileiro. A escolha pelo personagem Fudge não foi aleatória. Tanto Voldemort, na saga de Harry Potter, quanto o  coronavírus, surgem — cada qual no seu domínio próprio –, como a personificação do mal absoluto, o infamiliar por excelência, símbolo eminente da iminente catástrofe e do final do mundo, personificação de nossos medos e ansiedades mais profundos e primitivos: medos de vingança, de aniquilação e ansiedades persecutórias, como nos lembrou Melanie Klein, essa grande dama da psicanálise inglesa.

Ainda no texto “Esboço de Psicanálise”, Freud[7] realça que frente aos acontecimentos externos o ego pode responder por meio da adaptação e da modificação no mundo, tendo em vista seu próprio benefício, relacionado a sua autopreservação. Trata-se aqui do conceito de atividade ou, numa visão marxista, de trabalho. Com efeito, é pelo trabalho que homens e mulheres respondem aos desafios colocados pelo processo de produção e reprodução de sua humanidade e sociabilidade própria.

Foi no final do ano de 2019 que os chineses detectaram um novo vírus que teria ultrapassado a barreira das espécies, passando a ter acesso ao organismo humano, no âmbito do qual passou a se apoderar de um conjunto de células, localizadas nas vias áreas superiores (nariz e garganta), avançando, posteriormente, para as áreas inferiores (traqueia, brônquios e alvéolos), causando adoecimento e, em muitos casos, levando à morte dos indivíduos infectados.  Desde então, pesquisadores, agentes de saúde, políticos e populações em geral têm se engajado e agido visando diminuir o impacto do vírus na saúde pública e, a longo prazo, impedir que seu contato cause danos aos indivíduos e grupos humanos.

Ora, a chegada do vírus no território americano e brasileiro não se deu da mesma forma. Tanto nos Estados Unidos, de Donald Trump, quanto no Brasil, de Jair Messias Bolsonaro, a chegada do coronavírus foi recebida da mesma forma que Cornélio Fudge recebeu a notícia do retorno de Voldemort, isto é, sob o signo da negação. Assim como o ministro da magia, faz vista grossa ao corpo inerte de Cedrico Diggory, assassinado pelo Lorde das Trevas e, portanto, evidência palpável de seu retorno[8], também Trump e seu fiel seguidor, Bolsonaro, fizeram vistas grossas aos dados epidemiológicos relativos à COVID-19, bem como aos tristes cortejos dos corpos inertes, abatidos pela pandemia, muitos deles sem direito sequer a uma morte dignamente humana, haja vista que em alguns lugares os sistemas de saúde ficaram saturados e os profissionais de saúde foram obrigados a triste decisão sobre quem teria acesso aos cuidados e quem seria enviado para morrer em casa.

Quanto aos cientistas, profissionais de saúde e políticos que ousaram seguir a voz da razão e do bom senso, guiando-se pelo que preconizava a Organização Mundial de Saúde e as normativas próprias do saber científico, sobre eles abateu-se a fúria de Bolsonaro e seu séquito (os bolsominions) numa clara estratégia de desqualificá-los, acusando-os, dentre outras coisas, de unirem-se num complô visando derrubar o presidente da república. Aqui também podemos notar semelhança entre as estratégias utilizadas pelo mandatário da nação brasileira e as utilizadas por Fudge em sua tentativa de negar o retorno de Voldemort.

Assim é que Bolsonaro dirá, por ocasião da chegada da pandemia em solo brasileiro, que não passa de uma gripezinha, numa clara tentativa de minimização do problema. E após divulgação do sempre crescente número de mortes, no Brasil, ele acusou os estados mais atingidos (a exemplo de São Paulo) de estarem forjando os dados, como parte de um complô visando atingi-lo. A negação – enquanto mecanismo de defesa – é evidenciada tanto na tentativa de minimizar a pandemia quanto de colocar em xeque a veracidade dos dados epidemiológicos, mesmo que tais dados estejam sendo divulgados pelo próprio Ministério da Saúde. Mas, a negação não fica somente na fala, ela abrange também os atos da pessoa do presidente. Assim é que, mesmo depois de governadores, guiados pelas recomendações da Organização Mundial de Saúde – OMS – endossadas pelo Ministério da Saúde -, terem decretado, em seus territórios estaduais, o isolamento social, o presidente fez várias aparições públicas, cercado por seus seguidores e simpatizantes, ignorando e desqualificando a necessidade de isolamento social em contraste com as orientações repassadas pelas organizações e órgãos qualificados.

Outra estratégia de minimização da pandemia aparece quando o presidente começa a relacionar os seus efeitos à vulnerabilização de indivíduos e grupos sociais, afirmando, nas sublinhas de seus enunciados, e contra toda evidência dos dados epidemiológicos, que o vírus só atinge os fracos: idosos, portadores de doença crônicas, não atletas. Em suas aparições públicas, o presidente está sempre repetindo o refrão:  “sim, vai ter problema, mas não é isso tudo. E não vai atingir a todos, só quem é idoso, quem não é atleta, quem tem algum problema ou deficiência”[9]. É possível notar, nessas falas, ecos de uma visão eugenista, fundada em padrões de humanidade que classifica os corpos em dignos e indignos, sendo estes últimos aqueles que não tem sua humanidade reconhecida e que, portanto, não são merecedores de luto. Estamos aqui frente a uma clara desvalorização de algumas vidas, reduzidas a “gastos desnecessários” no âmbito do projeto político que o presidente representa, o neoliberalismo. Vidas, pois, que não contam.

Todas essas estratégias foram tentadas e já nos primeiros dias, frente à insistência do real, o presidente lança-se naquela que será sua cartada mais lembrada. Ele, cuja campanha eleitoral foi marcada pelo gesto significante “arma de fogo”, começou a sacar sua nova arma: uma caixa de Cloroquina, apresentada como uma espécie de “bala de prata” ou, para usarmos um termo retirado da saga Harry Potter, como a “varinha das varinhas”, frente a qual nenhum vírus, velho ou novo, sobreviveria.

Sem nenhum respaldo científico, apenas por ordem expressa de “seu querer”, “sua vontade”, “seu desejo”, o que revela a onipotência de seu pensamento, ele assegura para o mundo que o Brasil de Jair Messias tem a salvação. Assim é que durante teleconferência com os líderes dos 20 países mais ricos (G-20), Bolsonaro se apresenta ao lado de uma caixa do medicamento (Cloroquina), sem reparar que, sobre a mesa, o protótipo da “varinha das varinhas” apresentada  não foi feita de nenhuma fibra de coração de dragão, mas era uma simples caixa de papelão, o que lhe confere um aspecto de “farsa”, mas que, não obstante, nos propomos a ler como fetiche, amparando-nos em Freud.

É no artigo escrito em 1923 sobre “A organização genital infantil” que Freud[10] esclarece como o fetichismo resulta de uma recusa da realidade. Ele inicia o texto explicando como as crianças tendem a acreditar que tanto homens quanto mulheres possuam um pênis, esclarece que posteriormente, quando elas são confrontadas com o real, isto é, com a ausência de um pênis nas meninas, elas tendem a recusar o fato, acreditando, contra todas as evidências, que estão vendo um pênis. É somente mais tarde que as crianças cedem espaço à realidade, passando a acreditar que a ausência de um pênis é uma prova da castração [ela (a menina) também tinha, mas lhe foi tirado].

Notemos que há um primeiro tempo, tempo da infância e do pensamento mágico. Chega um segundo tempo, tempo de confronto com a realidade e de recusa. Aceitá-la é abrir mãos de nossas fantasias e desejos mais secretos. No entanto, a realidade tende a se impor e as crianças, em desenvolvimento, lhes cedem espaço. Para o fetichista, porém, o desenrolar é outro, uma vez que ele tende a permanecer na recusa da castração, erigindo um substituto (o objeto inanimado ou animado) que visa ocupar (na fantasia) o pênis não encontrado na realidade.  Assim, “ao deslocar para o fetiche o falo feminino que ele espera encontrar, a fantasia de que a mulher tem um pênis, apesar de criada pelo próprio menino, é mantida, e a recusa de sua condição de ausência de pênis é preservada”[11].

Será apenas depois da morte de Sirius, de um Harry Potter agonizante e de um estrago sem precedente no Ministério da Magia, que Cornélio Fudge se renderá a evidência de que o Lorde da Morte de fato retornou[12]. Será apenas quando iniciar a escala sem precedente no número de cidadãos americanos, mortos pelos efeitos da COVID-19, que o presidente Trump dará um passo atrás, passando a nuançar o discurso e a reconhecer a gravidade da atual pandemia, chegando mesmo a solicitar, através de carta enviada no dia 16 de março, que os norte-americanos permaneçam em casa, alertando que não apenas idosos, mas também os jovens correm perigo.

No caso do Brasil, mesmo os dados apontando para um aumento, a cada dia, no número de mortes, não obstante o isolamento social e, com o sistema de saúde de alguns estados começando a dar sinais de esgotamento, o presidente continua assumindo uma atitude negativa, com relação não mais a pandemia [dada a violência do real], mas aos seus efeitos e, concomitantemente, a falta de resposta de políticos, cientistas e agentes de saúde, frente a novidade do vírus. Tal como os fetichistas que não recuam mesmo diante da evidência do real, também o presidente do Brasil erigiu um substituto (a Cloroquina) para ocupar o vazio das respostas nãos encontradas na realidade, permitindo-lhe manter a fantasia de sua onipotência [aquele que sobreviveu], se protegendo assim do encontro com sua própria castração.

No caso de Fudge, como nos segreda a autora, sua recusa em acreditar no retorno de Voldemort estava relacionada a recusa em aceitar “a perspectiva de um esfacelamento do seu mundo confortável e ordeiro”. Observação confirmada pelo próprio Fudge, durante uma discussão na qual Dumbledore e outros professores de Hogwarts, tentam convencê-lo das evidências relativas ao retorno do Lorde. Sentindo-se acossado, ele dispara: “Parece-me que vocês estão decididos a começar uma onda de pânico que irá desestabilizar tudo pelo que trabalhamos nesses últimos […] anos!”[13]. Reconhecer o retorno do Lorde das Trevas era reconhecer, no mesmo movimento, que aquele mundo que ele ajudara a erguer, mundo confortável e bem ordenado, poderia, a qualquer momento, se esfacelar, se desfazer no caos. Em última instância, implicava no reconhecimento da castração, da incompletude, dessa “falta-a-ser” como constitutiva do humano e seus empreendimentos. Tal reconhecimento, para o ministro da Magia, era excessivamente intenso, excessivamente doloroso, razão pela qual ele recorre ao mecanismo de negação.

E no caso de Bolsonaro? O que o impede de reconhecer a verdade sobre a gravidade da pandemia e sobre nossa falta de respostas para lidar com o vírus e seus efeitos nos organismos humanos? Por que lhe é tão difícil, se ele mesmo afirmou que só a verdade liberta? Aqui também a similitude com o nosso personagem fictício (Fudge) nos oferece uma chave de leitura verossímil. Pois trata-se de mais do mesmo. Também para Bolsonaro o reconhecimento da realidade do novo coronavírus implica, como já frisamos, em lidar com sua própria castração, sua própria “falta-a-ser”, sua ferida narcísica, o que equivale a se desvencilhar do “manto do Messias” e, tal aquele rei de outra história infantil, perceber que também ele “está nu”. Por outro lado, assim como Fudge, o presidente do Brasil pressente que a chegada da pandemia pode favorecer o esfacelamento de seu mundo e de seus planos, não é à toa que ele ler a situação como complô contra tudo o que ele representa.

Não podemos esquecer que Bolsonaro foi eleito e se mantém, não obstante todas suas trapalhadas, para levar a cabo uma agenda de reforma visando alinhar o Brasil ao ideário neoliberal, com tudo que isso implica: privatizações, retiradas de direitos da classe trabalhadora, diminuição do protagonismo do Estado no que tange a oferta de bens e serviços direcionados a população, especialmente, em sua faceta mais vulnerável e aumento desse mesmo protagonismo no que tange ao setores do capital produtivo e financeiro. No âmbito cultural, sua missão é alavancar a pauta do obscurantismo: menos ciência e mais crendices, bem como desconstruir os parcos espaços conquistados na agenda pública pelas minorias sociais (negros, mulheres, indígenas etc.) nos últimos tempos.

Ora, tudo aquilo que atrapalha a concretização de um tal projeto traz a potencialidade de contribuir para o esfacelamento do Mito à brasileira, sua desmistificação. Nesse contexto ganha sentido sua fala, em 27 de janeiro de 2020, durante pronunciamento nas redes sociais, ocasião em que o mito advertiu: Estamos tendo problema nesse vírus aí, o coronavírus. O mundo todo está sofrendo. As Bolsas estão caindo no mundo todo.  Já no dia 16 de março de 2020, em entrevista à Rádio Bandeirante e se referindo as medidas de isolamento social implementadas por vários estados, ele se queixará:  Se a economia afundar, afunda o Brasil. E qual o interesse dessas lideranças política? Se acabar economia, acaba qualquer governo. Acaba o meu governo[14].

Embora tenha se referido [na fala acima transcrita] ao sofrimento que o mundo padece no contexto da pandemia, o mundo ao qual ele se referiu é bem restrito, trata-se do mundo da bolsas de valores, do mundo da economia, do mundo da exploração do trabalho como forma de geração e maximização do lucro. Sim, a bolsa sofre, e com ela os bolso[nários] de todos os lugares. Não é à toa que durante uma manifestação no Brasil, no formato de carreatas a favor do fim das medidas de isolamento, vários observadores tenham registrados a presença massiva de grandes carros de luxo, deixando claro a quem interessava o relaxamento dessas medidas.

O sofrimento a que o “Bolso” se refere não é o sofrimento humano, nem mesmo o sofrimento do trabalho, mas o sofrimento do capital, tolhido em sua voracidade, pela voracidade do vírus que coloca grande parte dos trabalhadores e trabalhadoras em quarentena. Esse vírus que impede a realização totalitária/plena do capital, ao impor um freio nos fluxos, impedindo a plena circulação de pessoas, matérias primas e mercadorias. A pandemia, ligada ao novo coronavírus, tem favorecido, ainda, a desestabilização do ideário neoliberal com seus receituários de menos Estado e de mais Mercado, além de potencialmente contribuir para frear o obscurantismo que grassava solto na sociedade brasileira. Nesse contexto, para Bolsonaro o reconhecimento efetivo da pandemia equivale ao reconhecimento da possibilidade de esfacelamento de seu mundo, algo difícil/doloroso para ser digerido/incorporado/aceito, tal qual o retorno de Voldemort era para Fudge.

Vale lembrar, para concluir, a fala que Dumbledore remete a Fudge, quando este se recusa a acreditar no retorno do Lorde Voldemort. Diz-lhe Dumbledore: “Você está cego de amor […] pelo cargo que ocupa, Cornélio! […] Digo-lhe agora, tome as medidas que sugeri e você será lembrado, no cargo ou fora dele, como um dos ministros da Magia mais corajosos e sábios que já conhecemos. Não faça nada, e a história irá lembrá-lo como o homem que se omitiu e permitiu que Voldemort tivesse uma segunda oportunidade de destruir o mundo que tentamos reconstruir![15]

Cremos que podemos assim parafrasear, para o caso brasileiro:

-Você está cego de amor, pelo cargo que ocupa, Bolsonaro. Digo-lhe agora, olhe para o exemplo dos outros países que levaram e que não levaram a sério a pandemia. Tome as medidas que a OMS e próprio Ministério da Saúde estão sugerindo e você será lembrado, no cargo ou fora dele, como um dos presidentes mais corajosos que já conhecemos. Não faça nada, siga caçando fantasmas por você mesmo criado, e a história irá lembrá-lo como o homem que se omitiu e mesmo permitiu que a pandemia destruísse o nosso mundo.

Agradecimentos: às amigas Helda Fadja Neves Sampaio e Vitoria Moura Goes, bem como ao prof. Henry Krutzen (pela leitura e observações) e ao amigo Joseeldo Pereira da Silva Junior, pelas correções ortográficas e sugestões. Gratos pelo carinho.

Escrito por Marcelo Saturnino da Silva – Doutor em Ciências Sociais pela UFCG. Professor do departamento de Educação na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) – Campus III


Notas:
[1] Rowling, J.K. Harry Potter e o enigma do príncipe. Rio de janeiro: Rocco, 2005.
[2] Rowling, J.K. Harry Potter e o enigma do príncipe. Rio de janeiro: Rocco, 2005.
[3] Freud, S. (1940 {1938]). Esboço de psicanálise. In: Obras Completas (Vol. XXIII). Rio de Janeiro: Imago, 1996. Disponível em: http://conexoesclinicas.com.br/wp-content/uploads/2015/01/freud-sigmund-obras-completas-imago-vol-23-1937-1939.pdf
[4] Freud, S. (1924). A perda da realidade da neurose e na psicose. In: Obras Completas (Vol. 16). São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
[5] Freud, S. (1925). A negação. In: Obras Completas (Vol. 16). São Paulo: Companhia das Letras, 2011
[6] Freud, S. (1925). A negação. In: Obras Completas (Vol. 16). São Paulo: Companhia das Letras, 2011
[7] Freud, S. (1940 {1938]). Esboço de psicanálise. In: Obras Completas (Vol. XXIII). Rio de Janeiro: Imago, 1996. Disponível em: http://conexoesclinicas.com.br/wp-content/uploads/2015/01/freud-sigmund-obras-completas-imago-vol-23-1937-1939.pdf
[8] Rowling, J.K. Harry Potter e o cálice de fogo. Rio de janeiro: Rocco, 2001.
[9] Arcanjo, D. Veja O que Bolsonaro já disse sobre coronavírus, de histeria a gripezinha e resfriado: em declarações, presidente nega gravidade da pandemia e trata como exagerada medidas dos governadores. Jornal Folha de São Paulo. 18.mar.2020 às 12h24/Atualizado: 13.abr.2020 às 16h35. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/03/veja-o-que-bolsonaro-ja-disse-sobre-coronavirus-de-certa-histeria-a-fantasia-e-nerouse.shtml
[10] Freud, S. (1923). A organização genital infantil. In: Obras Completas (Vol. 16). São Paulo: Companhia das Letras, 2011
[11] Campbell, D. A divisão do ego no processo de defesa. In: Perelberg, R.J et. al. Freud: uma leitura atual. Porto Alegre: Artmed, 2012.
[12] Rowling, J.K. Harry Potter e a ordem da Fênix. Rio de janeiro: Rocco, 2003.
[13] Rowling, J.K. Harry Potter e o cálice de fogo. Rio de janeiro: Rocco, 2001.
[14] Arcanjo, D. Veja O que Bolsonaro já disse sobre coronavírus, de histeria a gripezinha e resfriado: em declarações, presidente nega gravidade da pandemia e trata como exagerada medidas dos governadores. Jornal Folha de São Paulo. 18.mar.2020 às 12h24/Atualizado: 13.abr.2020 às 16h35. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/03/veja-o-que-bolsonaro-ja-disse-sobre-coronavirus-de-certa-histeria-a-fantasia-e-nerouse.shtml
[15] Rowling, J.K. Harry Potter e o cálice de fogo. Rio de janeiro: Rocco, 2001.

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