O fim da humanidade?, por Estevam Dedalus

A minha primeira reação ao ver o filósofo sul-africano David Benatar defender a extinção da espécie humana foi pensar “por que, diabos, ele não se suicida?” Acho que é uma incoerência entre doutrina e prática, intrujice filosófica, querer acabar com os seres humanos e não dar sua contribuição tirando a própria vida.

Os argumentos de David Benatar não são convincentes. Ele parte da constatação óbvia que a vida humana é marcada pelo sofrimento para concluir que não vale a pena viver. A solução dele não é, porém, tentar diminuir o sofrimento, mas por um fim na espécie humana. O raciocínio pode ser reduzido no adágio: “Se não vivemos, não sofremos”. O filósofo reconhece que a vida tem bons momentos e que podemos nos sentir felizes, mas como nada disso é permanente e a dor mais intensa que o prazer, o certo mesmo seria a extinção da humanidade.

Para concretizar tal objetivo ele não recomenda o extermínio em massa, deixando claro que há uma diferença fundamental entre exterminar e extinguir. O extermínio pressupõe o uso da violência, enquanto a extinção causas naturais. Sua proposta “damariana” é impedir a reprodução da espécie. Segundo o filósofo, trazer alguém à vida seria algo tão terrível que precisa ser evitado. Não haveria nada mais cruel e desnecessário do que colocar uma criança no mundo. Penso que a escolha individual de não ter filhos ou não querer viver é inteiramente legítima, mas tornar isso uma regra universal é uma loucura autoritária.

É preciso considerar que o prazer e a dor são sentimentos complementares, instáveis, que se realçam mutuamente. Esse fato levou Freud a afirmar que o ideal de felicidade jamais será realizado em sua plenitude. É por causa dessa instabilidade que ele achava absurdo pensar que a finalidade da vida humana seja a felicidade. As possibilidades de felicidade são limitadas pela nossa constituição física, psíquica e social, como também pela necessidade do contraste enquanto elemento essencial para o gozo.

Sem o contraste não conseguiríamos medir as diferenças dos estados emocionais, nem fazer escolhas de caráter moral que envolvam noções de bem e mal. Basta perceber como a comida fica muito mais saborosa depois de um longo período de jejum, assim como a água gelada é mais prazerosa em dias quentes. Comer um doce após uma refeição salgada e receber uma notícia alegre durante momentos de angústia ganham também outra coloração. A intensidade do contraste potencializa as sensações.

No século XVIII, o filósofo inglês Jeremy Bentham dizia que nada é capaz de exercer mais influência sobre os seres humanos que os intermitentes sentimentos de dor e prazer. Lutar contra esses senhores que tudo governam seria inútil. Dessa forma, ninguém seria absolutamente feliz ou infeliz, já que é impossível estender estados de prazer e dor indefinidamente. A expectativa de felicidade, no entanto, dirigiria nossas escolhas.

Existem muitas formas de encarar a vida. Umas mais otimistas, outras menos. Em determinados círculos intelectuais ser pessimista denotaria certo charme pessoal. Visão cultivada por vários filósofos que possui uma claque fiel. Todo pessimista, do ponto de vista prático, alimenta um conformismo nocivo em relação à realidade. É sempre mais fácil apontar os problemas e esperar que as tentativas de resolvê-los fracassem.


Escrito por Estevam Dedalus – Doutor em Ciências Sociais pela UFRN. Professor do Departamento de Educação e do curso de Especialização em Educação e Políticas Públicas (UEPB/Campus III).

Compartilhe

Leave a Comment

error: Este conteúdo está protegido!