I Have a Dream ( Eu tenho um sonho): O sonho de Martin Luther King ainda ressoa em George Floyd, por Alef Mendes

No dia 28 de agosto de 1963 aconteceu a Marcha de Washington por empregos e liberdade, isso por influência do Movimento Americano pelos Direitos Civis, ato que culminou no histórico discurso do Dr. Martin Luther King, I Have a Dream ( Eu tenho um sonho). Esse histórico discurso foi realizado num momento de segregação racial nos Estados Unidos. Naquele momento a discriminação racial era muito forte (não muito diferente de hoje), e assim, os Estados Unidos vivia um clima bastante permeado pelo racismo. Desse modo, vamos ler a seguir o Histórico discurso I Have a Dream ( eu tenho um sonho), do Dr. Martin Luther King, e assim, demonstrar a relação desse discurso com o caso de George Floyd.

“Eu estou contente em unir-me com vocês no dia que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação.
Há cem anos, um grande americano, sob cuja simbólica sombra nos encontramos, assinava a Proclamação da Emancipação. Esse momentos o decreto foi como um raio de luz de esperança para milhões de escravos negros que tinham sido marcados a ferro nas chamas de vergonhosa injustiça. Veio como uma aurora feliz para terminar a longa noite do cativeiro.

Mas, cem anos mais tarde, devemos enfrentar a realidade trágica de que o Negro ainda não é livre. Cem anos mais tarde, a vida do Negro é ainda lamentavelmente dilacerada pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação. Cem anos mais tarde, o Negro continua vivendo numa ilha isolada de pobreza, em meio a um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o Negro ainda definha à margem da sociedade americana, encontrando-se no exílio em sua própria pátria. Assim, encontramo-nos aqui hoje para dramatizarmos tal consternadora condição.

Em um sentido viemos à capital de nossa nação para descontar um cheque. Quando os arquitetos de nossa República escreveram as palavras majestosas da Constituição e da Declaração de Independência, estavam assinando uma nota promissória da qual cada cidadão americano seria herdeiro. Essa nota foi uma promessa de que todos os homens teriam garantidos seus inalienáveis direitos à vida, à liberdade e à busca da felicidade.

Existe algo, porém, que devo dizer ao meu povo que se encontra no caloroso limiar que conduz ao palácio da justiça. No processo de ganharmos nosso lugar de direito não devemos ser culpáveis de atos irregulares. Não busquemos satisfazer a sede pela liberdade tomando da taça da amargura e do ódio. Devemos conduzir sempre nossa luta no plano elevado da dignidade e disciplina. Não devemos deixar que nosso criativo protesto degenere em violência física. Sempre e cada vez mais devemos nos erguer às alturas majestosas de enfrentar a força física com a força da alma. Esta maravilhosamente nova militância que engolfou a comunidade negra não deve nos levar a uma desconfiança de todas as pessoas brancas, pois muitos de nossos irmãos brancos, como evidenciado por sua presença aqui, hoje, estão conscientes de que seus destinos estão ligados ao nosso destino, e que sua liberdade está intrinsecamente unida à nossa liberdade. Não podemos caminhar sozinhos.

À medida que caminhamos, devemos assumir o compromisso de marcharmos avante. Não podemos retroceder. Existem aqueles que estão perguntando aos devotados aos direitos civis: “Quando vocês ficarão satisfeitos?”. Não podemos ficar satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores incontáveis da brutalidade policial. Não podemos ficar satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados pela fadiga da viagem, não puder encontrar um lugar de descanso nos motéis das estradas e nos hotéis das cidades. Não podemos ficar satisfeitos enquanto a nobreza básica do Negro passa de um gueto pequeno para um maior. Não podemos jamais ficar satisfeitos enquanto um Negro no Mississipi não pode votar e um Negro em Nova York crê não existir nada pelo qual votar. Não, não, não estamos satisfeitos, e não ficaremos satisfeitos até que a justiça corra como água e a retidão também, como uma poderosa correnteza.

Não desconheço que alguns de vocês vieram aqui após muitas dificuldades e tribulações. Alguns de vocês recém saíram de diminutas celas de prisão. Alguns de vocês vieram de áreas onde sua busca pela liberdade deixou em vocês marcas das tempestades de perseguição e fê-los tremerem pelos ventos da brutalidade policial. Vocês são veteranos do sofrimento criativo. Continuem a trabalhar com a fé de que um sofrimento imerecido é redentor.

Voltem ao Mississipi, voltem ao Alabama, voltem à Carolina do Sul, voltem à Geórgia, voltem à Louisiana, voltem às favelas e aos guetos de nossas modernas cidades, sabendo que, de alguma forma, esta situação pode e será alterada. Não nos arrastemos no vale do desespero.

Tenho um sonho que algum dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado da sua crença. “Afirmamos que estas verdades são evidentes; que todos os homens foram criados iguais”.

Tenho um sonho que algum dia nas montanhas rubras da Geórgia os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos donos de escravos poderão sentar-se à mesa da fraternidade.

Tenho um sonho que algum dia o Estado do Mississipi, um Estado sufocado pelo calor da injustiça e opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça.

Tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos viverão um dia em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Tenho um sonho hoje.

Tenho um sonho que algum dia o Estado de Alabama, onde existem racistas maldosos e onde os lábios do governador pronunciam palavras de interposição e nulificação, um dia lá no Alabama meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas, como irmãos e irmãs. Tenho um sonho hoje.

Tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, todas as colinas e montanhas serão niveladas, os lugares acidentados se tornarão planos e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do Senhor será revelada e todos os seres a verão, juntamente.

Esta é nossa esperança. Esta é a fé com a qual regresso ao sul. Com esta fé seremos capazes de extrair da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé poderemos transformar as dissonantes discórdias da nossa nação em uma linda sinfonia de irmandade. Com esta fé poderemos trabalhar juntos, orar juntos, lutar juntos, ir para a prisão juntos, defender a liberdade juntos, sabendo que algum dia seremos livres.

Esse será o dia quando todos os filhos de Deus poderão cantar com um novo significado: “Meu país é teu, doce terra de liberdade, de ti eu canto. Terra onde morreram meus pais, terra do orgulho dos peregrinos, de cada montanha que ressoe a liberdade”.

E se a América for destinada a ser uma grande nação isto deve se tornar realidade. Que a liberdade ressoe nestes prodigiosos planaltos de New Hampshire. Que a liberdade ressoe nestas poderosas montanhas de New York. Que a liberdade ressoe nos elevados Alleghenies da Pensilvânia!

Que a liberdade ressoe nos nevados cumes das montanhas Rockies do Colorado! Que a liberdade ressoe nas encostas curvas da Califórnia! Não somente isso; que a liberdade ressoe na Montanha de Pedra da Geórgia! Que a liberdade ressoe na Montanha Lookout do Tennessee! Que a liberdade ressoe em cada colina e cada pequena elevação do Mississipi. De cada lado da montanha, que a liberdade ressoe.

Quando isto acontecer, quando permitirmos que a liberdade ressoe, quando a deixarmos ressoar em cada vila e cada aldeia, em cada Estado e cada cidade, seremos capazes de apressar o dia quando todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, com certeza poderão dar as mãos e cantar nas palavras da antiga canção negra: “Finalmente livres! Finalmente livres! Louvado seja Deus, Todo-Poderoso, estamos livres, finalmente!”

Percebemos neste histórico discurso do Dr. Martin Luther King uma denúncia que permeia décadas, pois em seu discurso ele diz: “Não podemos ficar satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores incontáveis da brutalidade policial.” Pois é, parece profético, mas não, era empírico na vida de negros/as americanos/as viverem nesse período especificamente na década de 60 do século XX a brutalidade policial codificada pelo racismo. Sobre a brutalidade policial que movimentos ou protestos de lutas por direitos de negros, ainda diz mais o Dr. Martin nesse histórico discurso: “Alguns de vocês vieram de áreas onde sua busca pela liberdade deixou em vocês marcas das tempestades de perseguição e fê-los tremerem pelos ventos da brutalidade policial.” Alguém pode pensar que o Dr. King era contra a polícia, mas não, ele era contra o racismo e brutalidade que a polícia exercia nos Estados Unidos na época. No entanto, essa brutalidade e racismo policial foram extintos nos Estados Unidos, e até mesmo no mundo? De maneira nenhuma. Infelizmente esse mal ainda está entrelaçado na sociedade. Nos Estados Unidos pessoas negras vem sendo mortas e condenadas inocentemente por erros policiais, por racismo policial. E agora em 2020 isso ficou visível para o mundo no caso de George Floyd, homem negro morto sufocado por um policial que usou a força exagerada na ação policial indubitavelmente atrelada a um racismo praticado por policiais que já denunciava nos anos 60 da década de XX o Dr. Martin, e agora reverberado no caso George Floyd. No Brasil a truculência policial em operações é denunciada quase que diariamente em todos lugares do país, principalmente nas favelas do Rio de Janeiro, e pessoas negras são brutalmente afetadas, mortas ( parece-me até que para muitas pessoas ser negro é sinal de ser fora da lei).

Dessa maneira, a brutalidade policial à pessoas negras denunciada no histórico discurso do Dr. Martin Luther King, reverbera atualmente no caso George Floyd, causando com este caso protestos no mundo, contra o racismo. Chega de negacionismo, porque o racismo existe sim; ele é institucional, estrutural, velado, e mata. Sim, o racismo mata. Sim, o racismo tira o fôlego de vida. Chega de racismo. Digamos sim à erradicação do racismo.

Graduando em História pela UEPB - CH; participante do NEABI - CH; extensão em Ciência Política e em aprofundamento nos estudos sobre representatividade e Invisibilidade da população negra na Política.
Graduando em História pela UEPB – CH; participante do NEABI – CH; extensão em Ciência Política e em aprofundamento nos estudos sobre representatividade e Invisibilidade da população negra na Política.

Fontes:

https://www.culturagenial.com/discurso-i-have-a-dream-de-martin-luther-king/

Discurso I Have a Dream completo e legendado

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