“Vencemos o primeiro dia de aula remota!” por Francineide Batista

“Não me lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos” (LYA LUFT). Ao ler a crônica de Lya Luft: “Pensar é transgredir”, fico a refletir se não é bem isso que estamos vivendo: um reinventar-se. Em tempos tão difíceis em que precisamos a todo instante repetir para nós mesmos que vai passar, que vai melhorar, o ato de reinventar nunca fez tanto sentido. Sorver a vida, os pequenos gestos, os mínimos detalhes, até por medo de não estarmos bem no dia seguinte. Beber a vida na sofreguidão dos dias, na lentidão das horas, na incessante busca por cuidado, saúde, amor, compaixão.

Reinventar pode significar, no sentido literal da palavra, recriar soluções, reelaborar; e nessa demanda, podemos pensar na realidade atual, em que a todo instante precisamos ressignificar algo em nossa vida para continuarmos sobrevivendo ao caos que nos envolve: a pandemia. Ao ouvir de uma jovem mãe a frase: “vencemos o primeiro dia de aula remota”, uma inquietação me tomou, e comecei a pensar sobre o reinventar-se. Nós, que somos professores e professoras, sabemos que o ensino não é algo fácil, a sala de aula requer muito de nós, principalmente formação para a docência. E o fato de uma mãe ou pai ter que gerir o ensino de seu/sua filho/a, muitas vezes se torna algo angustiante. E então entra o reinventar-se.
Reinventar-se como mães, pais, profissionais, docentes e discentes; reinventar-se como seres humanos. A busca por preencher a falta do ensino presencial, criar ou recriar soluções está se tornando uma demanda diária. São professores e professoras, as vezes utilizando as redes sociais, na tentativa de preencher esse tempo em que reelaborar o conhecimento é preciso. E criam-se artifícios para essa reelaboração do conhecimento como materiais didáticos, videoaulas, salas virtuais, e começa a busca por soluções. A pandemia nos mostrou muitas coisas, inclusive que é preciso e possível nos reinventar.

Por outro lado não posso deixar de pensar que embora tenhamos que “pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece” (LYA LUFT), essa tarefa não é fácil e nem acessível a todas as camadas da sociedade. Com tristeza, fico a imaginar as mães/pais que não têm acesso aos meios digitais (celulares, tablets, computadores) para suspirarem aliviadas/os ao dizer que venceu uma aula remota. Na falta desses equipamentos, perguntas que não querem calar: como se reinventar? Como reelaborar um conhecimento que as vezes nem foi construído ainda? Como gerir o ensino com as aulas remotas? São questões para reflexão que coloco, na clareza de que o mundo tecnológico ainda não é acessível a todas as pessoas. A resposta que me vem à cabeça é a exclusão. É preciso pensar nas camadas sociais que não têm acesso ao mundo digital.

Se não pensarmos nos menos favorecidos, como vamos poder ver que a “vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido”? (LYA LUFT). Como se renovar diante das injustiças sociais? Como as mães ou pais vencerão esses momentos tão difíceis, reinventando-se? Deixo esses questionamentos na intenção de provocar uma reflexão das questões que afetam a nossa sociedade, já que “pensar é transgredir”.

Cecília Meireles nos diz tão poeticamente que “A vida só é possível reinventada”. Pensando assim, podemos ver o outro lado dessa situação que tanto nos afeta. Somos capazes, sim, de reinventar e ressignificar esse momento tão dolorido. E não importam as ilusões criadas, ou o quanto “o sol passeia pelas campinas”, ou se tudo “são bolhas que vem de fundas piscinas de ilusionismo”, se a intenção for firme, e se persistir a ideia de reinventar-se, será vencida a batalha diária do medo, da angústia e do sofrimento psicológico que a pandemia causa. Reinventemo-nos!

Escrito por Francineide Batista – Mestra em Educação pela UFRN, Professora Substituta do Departamento de Educação (UEPB/Campus III).

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